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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

(des)Nível....

Responda rápido: você deixaria alguém sem preparo lhe fazer uma cirurgia? Ou quem sabe estaria disposto a morar em um prédio projetado por alguém desqualificado? Daria a qualquer um a opção de lhe defender em um tribunal?

As respostas são evidentes. Mas o Brasil tem um grau de tolerância muito ambíguo no que diz respeito a dar importância para o risco que corre ou não....

Veja bem: você sabe se o pão que você come todos os dias foi preparado por alguém que entende de higiene e manipulação de alimentos? Dorme tranquilo na cama de um hotel mesmo sem saber se a camareira tinha preparo para garantir roupas de cama limpas? Aliás, a injeção que você tomou na farmácia, seguramente, não deve ter sido dada pelo farmacêutico, mas pelo menos você sabe se a pessoa que manipulou a seringa a manteve esterelizada?

Ainda vivemos muita aparência. O Diploma ainda faz doutores, como se apenas algumas atribuições exigissem responsabilidade... que bom que a realidade está mudando.

Dados divulgados esta semana pelo IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - revelam que mais de 80% das vagas atualmente abertas no país tem como exigência de escolaridade, no mínimo, ensino médio completo. Mais: 70% delas estarão garantidas para quem contar com cursos específicos preparando o candidato para aquela atribuição. E por fim: 15% destas vagas não serão preenchidas (sim, vai sobrar vaga no país do desemprego, de novo), pois há mais vaga disponível do que profissional preparado no mercado!!!

E eis que os cursos técnicos, enfim, retomam seu lugar na escala de importância. Enquanto países como Estados Unidos e Alemanha contam com mais de 3 Técnicos para cada Bacharel, no Brasil esta proporção ainda é próxima de 1 x 1. Como resultado, vemos um infindável contingente de novos formandos, todos os anos, obtendo consolo em cargos operacionais, muitas vezes até distantes de sua área de formação.

Exemplos:

Quantos administradores nossos bancos escolares preparam anualmente? Gestores, planejadores, coordenadores, empresários..... Porém muitos deles vão inflar as filas do desemprego, pois não poderão sequer ocupar cargos como Assistente Administrativo (vaga atualmente abundante no mercado), pois em sua maioria não tem na faculdade uma cadeira que os ensine a preencher a CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social) com os dados obrigatórios. Sabe quem estaria bem preparado para esta vaga? Um Técnico em Secretariado ou um Técnico em Processos Administrativos, ambas atribuições rechaçadas pelo Conselho Regional de Administração. E qual empresa consegue viver tão somente composta por bacharéis? Ano passado tive a oportunidade de acompanhar debate público do Conselho Regional de Contabilidade, que propunha projeto de lei para acabar com a atribuição de técnico contábil. Ora, e quantos contadores em um grande escritório são efetivamente necessários para assinar balanços?

Não quero aqui vilipendiar nenhum profissional. É lógico que todos são plenamente importantes e o reconhecimento legal destas profissões são passos inegáveis da evolução profissional que pudemos perceber ao longo do tempo. Mas enquanto países até mais atrasados que o Brasil apresentam desenvolvimento gritante, reconhecendo e formando múltiplos profissionais e múltiplas atribuições, continuamos vendo o diploma apenas como status, um fim em si mesmo. No Chile, 30% dos bacharéis contam com formação técnica. Ou seja, evoluiram naturalmente, se formando primeiramente para executar bem e com competência determinada função, e ampliaram seu conhecimento com cursos de maior nível de formação a medida que as suas promoções e desafios apareciam. Evolução de carreira, acompanhada pela evolução do estudo. Agora imaginem o nível das aulas, compostas por profissionais em sua maioria detendo experiência profissional, discutindo assuntos que conhecem...

Muitas categorias valorizam a existência de outros níveis de formação. A Enfermagem há anos percebeu que nem todos os profissionais iriam para o Centro Cirúrgico, e ao invés de formar profissionais superiores frustrados, reconhecem o Técnico em Enfermagem. Os Engenheiros contam com o apoio do Técnico em Agrimensura, o Técnico em Mecânica e o Técnico em Edificações, dentre outros. E o que seria do Bacharel em Turismo sem os Técnicos em Hotelaria, ou mesmo os Guias de Turismo? Outras áreas já reconhecidas, como a Estética, contam tão somente com o nível técnico de formação, e mesmo assim preparando profissionais brilhantes....

Chega desse papo. Diploma não é status, e cada vez mais o negócio vai apertar mais. Precisamos de bons profissionais para excelentes serviços, cada qual com a formação certa para a atividade certa. Chega de balas de canhão derrubando (ou errando)passarinhos. Chega de frustração. Bem vindo a carreira do Século XXI. Bem vindo à evolução.....

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