Habilidades pessoais aumentam salários
Motivação e iniciativa colaboram para diferenças de cargo
Publicado em 15/04/2008 - 13:30
Dois colegas começam a trabalhar juntos na mesma empresa para exercer a mesma função e com o mesmo salário. Alguns meses depois, um deles começa a se destacar e é reconhecido. Enquanto ele conseguiu aumento salarial e promoção, a situação do outro continuou igual. A este, não restou outra alternativa senão lamentar a falta de sorte. Embora a situação acima seja somente um exemplo, muitas pessoas passaram por essa situação ou ouviram falar de casos similares. Como, afinal, explicar a preferência de um gestor por determinado funcionário quando ambos apresentam as mesmas qualificações técnicas? Será que a sorte vale como justificativa? Segundo a tese de doutorado do professor de economia da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), Ricardo Freguglia, defendida na FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo), a promoção do primeiro candidato é resultado de uma tendência de mercado. Hoje, não só as qualificações técnicas são levadas em conta na hora de valorizar um empregado. As chamadas habilidades não-mensuráveis - competências pessoais de um indivíduo - fazem com que ele se destaque entre os demais, além de ter grande peso num possível aumento salarial ou promoção.
O estudo realizado por Freguglia aponta que as habilidades não-mensuráveis explicam 88% das diferenças salariais entre profissionais com cargos e funções semelhantes, 83% das desigualdades entre as remunerações de funcionários do mesmo setor e 70% das distinções entre os valores pagos em cada região do país. Por essa razão, quem tem iniciativa, motivação, espírito empreendedor, facilidade de comunicação e trato com a equipe - itens considerados como habilidades não mensuráveis - ganha pontos em relação aos demais colegas na disputa por uma oportunidade de carreira. "Além das questões de gênero, escolaridade e idade, sempre entendi que havia algo a mais que justificasse a contratação de determinado indivíduo em detrimento de outro", explica Freguglia.
Para fugir das variáveis tradicionais, o pesquisador avaliou por meio de cálculos estatísticos as diferenças salariais entre profissionais das mesmas áreas e com as mesmas características pessoais (idade, qualificação e sexo). Foi analisada uma amostra de 500 mil trabalhadores registrados de 1995 a 2002 no MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), de todos os estados do Brasil e dos diversos setores econômicos. "O universo pesquisado representa apenas 1% do banco de dados da Relação Anual de Informações Sociais do MTE. Embora o índice pareça pouco expressivo, é bastante significativo para um cálculo estatístico", assegura o pesquisador.
O levantamento também apontou que São Paulo e Distrito Federal são os que mais valorizam as habilidades não-mensuráveis, enquanto que os contratantes das regiões Norte e Nordeste dão menor ênfase à questão. A pesquisa, porém, não dimensiona o universo empresarial em que isso acontece, ou seja, se as incidências são maiores nas pequenas, médias ou grandes empresas. "Este é o próximo processo do estudo: identificar cada uma das empresas e saber se as suas características também interferem nas diferenças salariais", complementa Freguglia.
Como acontece na prática?
O gestor de Tecnologia e Informática do Grupo Foco, Luis Carlos Cruz, recorreu, duas vezes, às habilidades não-mensuráveis para promover seus funcionários. E não se arrepende. Ele conta que, em 1998, recebeu no setor um novo estagiário. O então estudante se destacava por um comportamento pró-ativo fora do comum que não só era responsável pelo sucesso no desempenho de suas tarefas, como também na de seus colegas de equipe. "Ele é um funcionário que supera as expectativas. Tanto é que de aprendiz passou à analista I, II, III, até alcançar a atual posição como coordenador de desenvolvimento", explica.
Anos depois, a mesma história se repetiu com uma estagiária. Antes mesmo de concluir a graduação, a estudante que ingressou na empresa pelo programa de estágio, passou a integrar o quadro de funcionários efetivos. "Durante o período de estágio, ela mostrou ter habilidades e características muito importantes para qualquer profissional, tais como: pró-atividade, iniciativa, força de vontade e boa relação interpessoal. Não podíamos perder esse talento", explica Cruz. Esse reconhecimento não ficou apenas na contratação. Houve também um incentivo financeiro. O salário dela passou de R$ 946 para R$ 2.200.
Há empresas, no entanto, que reconhecem esses talentos de forma diferente. Esse é o caso da International Paper. A companhia criou um programa de estímulo ao desenvolvimento pessoal de seus funcionários que oferece uma "recompensa" àqueles que obtiverem o melhor desempenho. "Anualmente, a matriz nos destina uma verba extra a ser dividida entre todas as áreas. Cada setor escolhe um funcionário de maior destaque. O selecionado é premiado com uma quantia em dinheiro", explica a gerente de desenvolvimento da empresa, Silvia Zwi.
De acordo com Silvia, a avaliação dos funcionários é feita a partir de sua performance diante dos desafios impostos durante a jornada de trabalho. "Cerca de 50% desse desempenho está relacionado ao conhecimento técnico e os outros 50% às habilidades pessoais", aponta. Para a gerente, não basta apenas ter informações, é preciso ter sabedoria para colocá-las em prática e convertê-las em resultados para a empresa.
O diretor do Grupo Foco acredita que há três fatores que devem ser considerados na tomada de decisão de uma promoção: as qualificações técnicas, as características pessoais e os resultados dos funcionários. Mas, na opinião dele, as chamadas habilidades não-mensuráveis são as que têm maior peso. "Essas são competências inerentes ao ser humano e, dificilmente, são desenvolvidas. Já os conhecimentos técnicos podem ser aperfeiçoados por meio de treinamentos e os resultados estimulados", ressalta.
Segundo Cruz, através de pequenas atitudes é possível verificar o talento de um profissional. "Basta lançar um problema sem solução aparente. Com isso, você consegue identificar o comprometimento do colaborador. Por aí, avalia-se também se ele sabe lidar com desafios e se sabe trabalhar em equipe. Além, é claro, de ser possível verificar se há força de vontade por parte do empregado", opina.
Silvia acredita que as habilidades não-mensuráveis são fundamentais para o crescimento de qualquer profissional, independentemente de sua área de atuação. "É uma forma dele se manter competitivo, conquistar um diferencial diante dos colegas e, conseqüentemente, evoluir dentro ou fora da empresa", garante ela. Mas não é só o funcionário que ganha com isso. "A empresa se beneficia, direta e indiretamente, com o desenvolvimento dos seus funcionários. Já que pessoas mais motivadas e interessadas produzem mais e melhor", afirma Silvia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário